
23 de Abril de 1982 seria uma data a recordar por muitos dos fãs do que foi provavelmente o computador pessoal mais famoso da Europa: o ZX Spectrum.
Desenvolvido no Reino Unido pela Sinclair Research, o ZX Spectrum foi o 3º modelo da serie ZX. O pai do ZX Spectrum foi Sir Clive Marles Sinclair, inventor inglês que começou a sua história na década de 60 produzindo amplificadores de som e calculadoras de bolso nos formatos que hoje consideramos normais
Sir Clive Sinclair em conjunto com Richard Altwasser (que desenhou o hardware) e Rick Dickinson (que desenhou o casing), criaram o que seria considerado o primeiro micro computador de custo reduzido.
Com um processador Z80A de 8-bit a correr a uns estonteantes 3,5 MHz e 16Kb de RAM, o ZX Spectrum 16K foi o primeiro computador da serie ZX a ter o nome de Spectrum e era conhecido internamente como “Issue 1” visto pouco tempo depois do seu lançamento a Sinclair ter lançado o modelo ZX Spectrum 48K “Issue 2”. Os utilizadores do “Issue 1” tinham a possibilidade de comprar a expansão de 32Kb, chamada RAMPack que era ligada à porta de expansão do computador.
O suporte de dados utilizado pelo ZX Spectrum era a cassete de audio, o que requeria uma ligação a um gravador de cassetes externo e só em modelos posteriores passou a ser incluído no próprio computador.
Devido ao modo como era feito o carregamento dos dados, o Spectrum exigia por vezes que os seus utilizadores fossem especialistas na arte do parafuso
O parafuso, existente nos gravadores da altura, servia para fazer o ajuste fino das cabeças de gravação, o que podia decidir se os 15 minutos de carregamento de um jogo seriam (ou não) um sucesso.
Houve várias tentativas de mudar este processo e substituir o suporte de dados de cassetes para cartuchos, conhecidos como ZX Microdrives, no entanto, o que cedo garantiu o sucesso do ZX Spectrum, alem da versão de Basic que vinha na ROM (e as teclas de borracha
) foi precisamente a distribuição do software em cassettes, que permitia um nível elevado de pirataria. Depressa o ZX Spectrum tornara-se um dos computadores com mais sucesso na Europa. Na América tinha sido licenciado à Timex Corporation, e apesar de construírem um clone melhorado do ZX Spectrum (porém um pouco incompatível), o Timex nunca atingiu o mesmo nível de sucesso pelas terras do tio Sam.
Em 83 o Spectrum tinha atingindo um patamar de fama indiscutível, vendera mais do que qualquer computador construído no Reino Unido até aquela data e tornara-se um ícone nacional. Margaret Thatcher oferecera pessoalmente um Spectrum ao primeiro ministro japonês como símbolo da proeza tecnológica britânica.
Outros modelos se seguiram ao ZX Spectrum pelas mãos da Sinclair, mas tirando o Spectrum 128K e o Spectrum +2, foram poucos os que tiveram o mesmo sucesso do “Speccy”, como é carinhosamente chamado pelos fãs.
A linha Spectrum vendeu relativamente bem, tendo sido mais tarde comprada pela Amstrad, que desenvolveu vários modelos especialmente direccionados para o mercado empresarial. O Spectrum sobreviveu até 1992, altura em que as consolas de 16-bit da Nintendo e Sega começaram a ganhar terreno nos mercados Europeu e Americano.
No entanto, devido à simplicidade do hardware e funcionamento do Spectrum, vários clones (legais e ilegais) foram e ainda são produzidos hoje em dia, especialmente em países com a China e a Russia.
O Spectrum, os Jogos e Portugal
Diz-se que em Portugal, contam-se por os dedos os utilizadores do ZX que alguma vez compraram um jogo original. Com 150 ou 300 escudos obtinham-se cópias de jogos com capas fotocopiadas a preto e branco que eram muitas vezes pintadas com marcadores e lapis de cor em casa, ao esperar que o jogo carregasse (se bem que algumas cópias de qualidade vindas de Espanha já eram a cores).
Eram muitas as lojas que começaram a duplicar jogos, vendiam-se em papelarias e até em feiras, onde muitas vezes o negócio da cassete pirata arruinava a experiência. Vários são os relatos de quem comprou um jogo na feira e quando foi tentar jogar, levou com as belas melodias do José Cid.
Uma cassette de 3 horas dava para gravar uma boa compilação de jogos e eram feitas colecções inteiras com menos de 5 contos (+/-25€). Em Portugal, os jogos não estavam protegidos pela lei dos direitos de autor e a proliferação dos jogos piratas fez aumentar em pouco tempo as vendas do Spectrum em 200%.
Os primeiros Spectrums a entrar no nosso mercado vinham por distribuidores espanhóis mas rapidamente começaram a ser importados do Reino Unido e comercializados em lojas de electrodomésticos. Pouca ou quase nenhuma publicidade era feita ao Spectrum, sendo apenas passada a palavra por quem tinha um ou conhecia quem tivesse. Era giro, pequenino, tinha umas teclas de borracha e até dava para “ensinar os putos a fazer contas”, para não falar nos jogos que dava para jogar.
O primeiro jogo que joguei num Spectrum foi o Chuckie Egg, que deve ser provavelmente um dos jogos mais conhecidos para a plataforma. Muitas eram as tardes depois da escola na casa de amigos a jogar Chuckie Egg. Na altura o pessoal limitava-se a jogar apenas um jogo devido ao tempo que os jogos demoravam a carregar no Spectrum. No entanto, a competição e a vontade de ver os “quadros” (níveis) seguintes eram o verdadeiro “fun factor”.
Mais tarde começaram a aparecer as revistas dedicadas a jogos de computador, maioritariamente revistas espanholas que traziam os “pokes, as dicas e os mapas. A mais famosa em Portugal foi provavelmente a MicroMania, revista espanhola em formato A3 (na altura) que trazia listagens de código para copiar e depois gravar, muitas horas eram perdidas só para ter um jogo. Apenas mais tarde as revistas começaram a incluir cassetes com jogos e programas. No estrangeiro, havia inclusive programas de rádio e televisão que transmitiam jogos e programas em audio para se gravar nas cassetes e carregar no computador.
No Spectrum nasceram grandes títulos que formaram as bases do que é hoje a industria dos vídeo jogos. É de alguns desses títulos que irei falar aqui em futuros posts.
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